Data de Publicação: 21 de março de 2006

“Nas eleições de outubro o SINPROESEMMA vai atuar de forma autônoma. Não se deixará manipular, mas não ficará omisso”. É assim que o presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública do Maranhão (SINPROESEMMA), Professor Odair José, define a participação da entidade na batalha eleitoral deste ano.
Aos 33 anos, o Professor Odair José está em seu segundo mandato na presidência do SINPROESEMMA . Ali dirigiu três greves para cobrar a aplicação do Estatuto do Magistério Estadual; negociou a efetivação dos excedentes do concurso de 2000 para professor da rede estadual; coordenou o ingresso de milhares de ações judiciais cobrando direitos de professores que trabalharam no sistema do telensino e dos que foram promovidos e não receberam os retroativos.
Professor de Matemática no Complexo Educacional Edison Lobão (Cegel), da rede estadual de ensino, Odair José obteve nas últimas eleições municipais 2063 votos. Ficou na primeira suplência dentro coligação do PCdoB-PCB-PRTB-PHS, que elegeu o vereador Joberval Bertoldo (PCB).
Ele nega que seja candidato a qualquer cargo eletivo. No momento, segundo o professor Odair José, seus planos são exercer seu mandato no Sinproesemma, desenvolver suas tarefas como dirigente estadual do PCdoB, partido a que está filiado há 10 anos, e contribuir com a campanha pela reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Mas ele diz que “a categoria desperta para a necessidade de ter os seus próprios representantes na Assembléia Legislativa e no Congresso Nacional” e por isso lançará candidato.
Atos e Fatos – No final de janeiro, o governo estadual convidou o Sinproesemma para participar do Fórum Permanente de Educação. Isso significa uma adesão ao governo, professor?Professor Odair José – Não! O SINPROESEMMA é autônomo e independente em relação a governo, seja estadual ou municipal; seja José Reinaldo, Tadeu Palácio, Roseana Sarney ou Jackson Lago. Nossa participação no Fórum de Educação, que ainda não saiu do papel, é para defender as bandeiras históricas da categoria. Nossa entidade não se nega ao diálogo, mas não vai a reboque de governo ou instituições. Acreditamos que o Fórum é mais um espaço para o debate sobre a educação pública de nosso Estado. Essa, independência, no entanto, não tem sido compreendida pelas forças políticas que se enfrentam atualmente no Maranhão. Elas querem o Sinproesemma alinhado a um ou outro lado.
Atos e Fatos – Explique melhor, professor... Professor Odair José – O grupo liderado pelo senador José Sarney(PMDB-AP) por fazer oposição ao governador José Reinaldo (PSB) quer que o SINPROESEMMA seja intransigente em relação ao governo estadual. Pensa em usar a justa luta dos educadores estaduais para desgastar o governo e carrear prestígio e votos para a senadora Roseana Sarney (PFL). Já a Frente de Libertação do Maranhão quer que, em nome do combate ao grupo que há 40 anos hegemoniza a política maranhense, o Sindicato arrefeça a sua luta, deixe de fazer as cobranças ao governo do Estado, feche os olhos para a situação precária da educação pública e para o desrespeito aos direitos dos educadores. Há um verdadeiro patrulhamento político e ideológico. Em várias oportunidades veículos de comunicação ligados a esses grupos, acusaram o SINPROESEMMA e seus dirigentes de ajudarem o grupo adversário.
Atos e Fatos – Mas qual será a postura do SINPROESEMMA nas eleições de outubro próximo, nesse ambiente de polarização política?Professor Odair José – Precisamos esclarecer algumas questões. O SINPROESEMMA é suprapartidário. Ali convivem comunistas, socialistas, trabalhistas, democratas de todo o tipo. Ele não é apolítico, mas não é partidário. Nas eleições de outubro o Sinproesemma vai atuar de forma autônoma. Não se deixará manipular, mas não ficará omisso. Defenderá uma plataforma de transformação profunda do Maranhão e, em especial, dos aspectos educacionais, onde há um atraso de décadas. Ela será apresentada a todos os candidatos e cobraremos o posicionamento deles, para futura e eventual administração estadual. Com isso vamos orientar nossa categoria a ter uma postura de educadora política de nossa população, com destaque para a juventude, que é a nossa clientela imediata. Queremos sair do corporativismo, sem esquecer as questões específicas, para ter um diálogo com toda a sociedade e servi-la de referencial. Na prática vamos realizar seminários e debates em todo o Estado; publicaremos cartilhas e jornais; divulgaremos nossas reivindicações e nosso pensamento. Depois da eleição, cobraremos do novo governo, seja ele Jackson Lago, Roseana Sarney ou Edson Vidigal, o atendimento a essas reivindicações.
Atos e Fatos – Quais os principais pontos desse programa?Professor Odair José – Estamos estudando e preparando alguns seminários para definir as propostas desse programa. Vamos ouvir especialistas das universidades. Conversaremos com quem está atuando no dia-a-dia da educação pública. Mas há alguns aspectos que considero importante constar nele. O primeiro é a democratização das relações na educação. Eleições diretas para diretor, conselho escolares, funcionamento autônomo e independente dos conselhos fiscalizadores (Fundef, Merenda Escolar etc) são alguns elementos. Outro aspecto é o planejamento a médio e longo prazo do atendimento à demanda crescente por Ensino Médio e Superior. Não podemos ficar com soluções paliativas. O Fundef estimulou a oferta de vagas no Ensino Fundamental. Mais alunos têm concluído a 8ª série. O telensino de Roseana Sarney ou a instalação precária de escolas feita por José Reinaldo não são saídas.
Atos e Fatos – Muitos deputados estaduais estão preocupados com a campanha de denúncias que o SINPROESEMMA vem desenvolvendo. Vêem nisso objetivos políticos.Professor Odair José – É muito bom que eles se preocupem. Mas deveriam ter feito isso antes de golpearem, por duas vezes, os trabalhadores em educação pública. De fato a campanha é de conscientização política. Não é partidária, mas a categoria desperta para a necessidade de ter os seus próprios representantes na Assembléia Legislativa e no Congresso Nacional. Um exemplo é o ex-presidente de nossa confederação – a CNTE –deputado federal Carlos Abicalil, eleito pelo PT de Mato Grosso. Esses representantes não defendem apenas os interesses imediatos e corporativos, mas se envolvem nas questões educacionais. Quem ganha é a sociedade.
Atos e Fatos – Isso quer dizer que você será candidato?Professor Odair José – Não! Mas a categoria iniciou o debate nos municípios para indicar, em uma grande convenção, um candidato. Um dos nomes estudados é o do diretor do SINPROESEMMA, professor Júlio Guterres.
Atos e Fatos – Mas soubemos que estaria em negociação o licenciamento do vereador Joberval Bertoldo (PCB) para que você assumisse o mandato de vereador. Tudo abençoado pela prefeitura e pelo governo do Estado.Professor Odair José – De fato correu esse boato na imprensa. Até de forma maldosa, com o objetivo de macular o nossa atividade político e sindical . Mas garanto que não estamos – nem eu nem o meu partido, o PCdoB – negociando minha assunção ao mandato. Muito menos com o governo estadual, com que mantemos divergências devido a sua postura em relação à pública e seus trabalhadores. Também nada tratamos disso com o prefeito Tadeu Palácio (PDT). Fui surpreendido por essas especulações na imprensa. Creio que o mesmo aconteceu com o vereador Joberval, que nunca foi ouvido pelos jornalistas.
Atos e Fatos – Quanto à presidência da República, o SINPROESEMMA vai lavar as mãos?Professor Odair José – De jeito nenhum! A nossa avaliação é que há algum tempo estão em disputa, em nosso país, dois projetos. Um neoliberal, que começou com o Collor de Mello e atingiu sua plenitude nos dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Outro, de caráter democrático e nacional, que propõe uma alternativa ao alinhamento automático com os Estados Unidos da América (EUA). Os funcionários públicos e a sociedade sabem o que foi o governo FHC. Conhecem agora que um outro Brasil é possível. Por isso, Lula tem ampla aprovação dos mais pobres. E com ele estaremos durante 2006, lutando por sua reeleição.
Atos e Fatos – Mas é exatamente na economia que o governo Lula é criticado por seguir a cartilha do governo anterior...Professor Odair José – Crítica que nós mesmos fazemos a muitos desses aspectos econômicos. Mas reconhecemos que o presidente Lula recebeu um país com grandes obstáculos ao desenvolvimento, como déficits enormes, dívidas, vulnerabilidade externa acentuada e perda de controle da inflação. Lula teve a capacidade para recompor a estabilidade e criar as condições básicas para um projeto de desenvolvimento nacional seguro e prolongado. É por essa razão que defendemos uma nova versão da Carta aos Brasileiros [programa lançado por Lula antes da campanha de 2002], que sinalize desenvolvimento econômico e social forte. Queremos que o segundo mandato de Lula seja diferente do primeiro.
Atos e Fatos – Nem todos do governo pensam assim, não é Professor Odair?Professor Odair José – De fato! O governo Lula é de composição entre forças que disputam espaço e têm interesses próprios. Alguns até antagônicos. Por isso, será necessário reforçar o núcleo de esquerda da coligação que reúne PT, PCdoB e PSB, e atrair forças de centro-esquerda como o PMDB.
Atos e Fatos – No Maranhão também?Professor Odair José – Respeitando as particularidades da realidade regional, é preciso abrir caminho para um palanque de Lula que reúna as forças mais avançadas do Estado. Que signifique a sintonia do Maranhão com as mudanças de rumo que o país precisa seguir. Nosso Estado não pode perder mais uma vez o bonde da História.
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*ENTREVISTA PUBLICADA PELO JORNAL "ATOS E FATOS", NA EDIÇÃO DO DIA 19 DE MARÇO DE 2006